ELEIÇÕES 2026: CANDIDATURAS INDÍGENAS COLOCAM OS TERRITÓRIOS DO MARANHÃO NO CENTRO DO DEBATE POLÍTICO
Presença de lideranças indígenas na disputa eleitoral amplia o debate sobre território, direitos, saúde, educação, cultura e participação política dos povos originários
As eleições de 2026 colocam novamente em debate a presença dos povos indígenas nos espaços institucionais de decisão. No Maranhão, onde diferentes povos enfrentam desafios relacionados à proteção territorial, educação, saúde, segurança, preservação ambiental e garantia de direitos, candidaturas indígenas chegam às urnas levando para o debate público demandas construídas a partir dos próprios territórios.
Entre os nomes identificados no levantamento estão Magno Guajajara, candidato a deputado federal pelo Maranhão, e Rosilene Guajajara, candidata a deputada estadual. As duas candidaturas estão registradas no pleito de 2026 e se apresentam como parte da participação indígena na política institucional do estado.
Rosilene Guajajara, registrada como Rosilene Guajajara de Sousa, é indígena, nasceu em Bom Jardim (MA), possui ensino superior completo e disputa uma vaga na Assembleia Legislativa do Maranhão pelo Partido dos Trabalhadores, com o número 13222. Segundo os dados eleitorais consultados, sua candidatura consta como deferida.
Já Magno Machado Lima Guajajara, que utiliza o nome eleitoral Magno Guajajara, disputa uma vaga na Câmara dos Deputados pelo Maranhão. Dados divulgados sobre sua candidatura o identificam como indígena do povo Tenetehara e candidato pelo PSOL, com o número 5000.
A política também é território
A presença indígena na política institucional não se resume à ocupação de uma cadeira no Legislativo. Para os povos originários, a representação política está diretamente relacionada à possibilidade de levar para os espaços de decisão temas que impactam diariamente as comunidades.
Território, demarcação, proteção das florestas, enfrentamento às invasões, educação escolar indígena, saúde diferenciada, segurança das comunidades, valorização das línguas e culturas, políticas para juventude e mulheres indígenas e participação social são questões que dependem de políticas públicas e de decisões tomadas nas diferentes esferas do Estado.
A própria Constituição Federal reconhece aos povos indígenas sua organização social, costumes, línguas e tradições, além dos direitos originários sobre as terras tradicionalmente ocupadas. O texto constitucional também estabelece à União o dever de demarcar, proteger e fazer respeitar esses territórios e seus bens.
Por isso, a participação indígena nos espaços de poder pode ser compreendida como uma dimensão da própria luta pela garantia de direitos.
Quem vive no território também precisa participar das decisões
Durante décadas, decisões sobre os povos indígenas foram tomadas majoritariamente sem a presença dos próprios povos nos espaços institucionais de poder.
A ampliação da participação indígena nas eleições modifica esse cenário ao colocar lideranças, representantes e integrantes das comunidades diretamente no processo político.
O Tribunal Superior Eleitoral reconhece que as candidaturas indígenas ainda representam uma parcela reduzida do universo eleitoral brasileiro e, em 2026, lançou campanha destinada a ampliar a participação de mulheres, pessoas negras e indígenas nas eleições. Segundo o TSE, foram aproximadamente 130 candidaturas indígenas em 2018 e cerca de 190 em 2022 nas eleições gerais.
Em 2026, a APIB identificou 191 candidaturas de pessoas que se declararam indígenas, distribuídas por diferentes estados brasileiros. A organização também apresentou uma articulação nacional com 56 candidaturas indicadas pelas organizações regionais indígenas, sendo 33 para deputado estadual, 19 para deputado federal, duas para o Senado, uma para governo estadual e uma para segunda suplência do Senado.
O crescimento dessas candidaturas revela uma movimentação política que ultrapassa a disputa eleitoral. Trata-se também da reivindicação de participação direta nas decisões que afetam os povos e seus territórios.
Maranhão: representação indígena em debate
No Maranhão, essa discussão possui dimensão particular. O estado abriga diferentes povos indígenas e extensos territórios tradicionais, que convivem com pressões e desafios relacionados à proteção territorial e à garantia de políticas públicas.
Nesse contexto, a presença de candidaturas indígenas para a Assembleia Legislativa e para a Câmara dos Deputados amplia a possibilidade de que temas específicos dos povos originários estejam presentes no debate eleitoral.
No Legislativo estadual, uma representação indígena pode participar das discussões e votações relacionadas a políticas públicas estaduais, orçamento, educação, saúde, meio ambiente, infraestrutura e outras áreas que alcançam diretamente as comunidades.
No Congresso Nacional, deputados federais participam da elaboração de leis, da fiscalização do Poder Executivo, da discussão do orçamento federal e de debates que envolvem direitos territoriais e políticas públicas de alcance nacional.
A legislação brasileira também estabelece como princípio a participação dos povos indígenas e de suas organizações nas instâncias do Estado responsáveis por definir políticas públicas que lhes dizem respeito.
Representação não substitui a organização dos povos
Eleger representantes indígenas, porém, não significa transferir para uma pessoa a responsabilidade pela luta coletiva.
A força política dos povos continua sendo construída nos territórios, nas organizações indígenas, nas assembleias, nas comunidades, nas mobilizações e nos processos coletivos de decisão.
A representação institucional é mais uma frente dessa luta.
Por isso, o debate sobre as eleições também passa pela necessidade de conhecer quem são as candidaturas, suas trajetórias, propostas, compromissos públicos e relação com as comunidades e organizações indígenas.
O voto é individual e livre, mas as consequências das decisões políticas alcançam coletivamente os territórios.
O território também chega às urnas
As eleições de 2026 representam, para os povos indígenas do Maranhão, mais um momento de discussão sobre quem ocupará os espaços onde são tomadas decisões que podem afetar diretamente suas vidas e seus territórios.
A participação de candidaturas indígenas amplia a presença dos povos originários na política institucional e coloca em evidência uma questão fundamental: os povos indígenas não querem apenas ser ouvidos sobre as decisões que envolvem seus territórios; querem participar dos espaços onde essas decisões são construídas.
Para a COAPIMA, o processo eleitoral também pode ser compreendido como um momento de informação, diálogo e fortalecimento da participação política indígena.
Conhecer as candidaturas, acompanhar suas trajetórias, analisar suas propostas e compreender suas posições sobre os direitos dos povos indígenas são passos importantes para que cada eleitor possa exercer seu direito de escolha de maneira consciente e autônoma.
Porque defender os territórios também passa por disputar os espaços onde as decisões sobre eles são tomadas.
TEXTO: Kelly Bone Guajajara – Coordenadora de Redes COAPIMA
