NOTA: COAPIMA DEFENDE CACIQUE ANTÔNIO WILSON GUAJAJARA E REAFIRMA COMPROMISSO COM A DEFESA DOS TERRITÓRIOS INDÍGENAS

DEFENDER QUEM PROTEGE O TERRITÓRIO É DEFENDER A VIDA DOS POVOS INDÍGENAS

A Coordenação das Organizações e Articulações dos Povos Indígenas do Maranhão (COAPIMA) reafirma, neste momento de extrema preocupação, seu compromisso com a defesa das lideranças indígenas que estão na linha de frente da proteção dos territórios, das florestas e dos direitos coletivos dos povos originários.

No próximo 17 e 18 de setembro, será realizada nova audiência relacionada ao processo que envolve o cacique Antônio Wilson Guajajara, conhecido como “Pistola”, liderança da Terra Indígena Caru. Diante desse momento, a COAPIMA considera fundamental que o caso seja analisado com responsabilidade, levando em conta não apenas a acusação apresentada, mas também a realidade territorial, a trajetória da liderança e o contexto de conflitos e ameaças enfrentados historicamente pelo povo Guajajara.

A COAPIMA afirma sua convicção na inocência do cacique Antônio Wilson e considera que a acusação de extorsão mediante sequestro não encontra correspondência na realidade dos fatos, apresentando contradições que precisam ser devidamente consideradas no processo. Não se pode analisar uma acusação isoladamente, ignorando o contexto em que os acontecimentos ocorreram, as relações existentes no território e a trajetória de uma liderança que há anos atua na defesa da comunidade.

Antônio Wilson não é uma liderança que surgiu agora. Sua história está diretamente ligada à luta pela proteção da Terra Indígena Caru. O próprio histórico público sobre sua atuação registra que ele passou a sofrer ameaças em razão de sua atividade como cacique e permaneceu junto à comunidade mesmo diante de situações de risco.

A Terra Indígena Carú é um território de enorme importância para a proteção da floresta amazônica no Maranhão. É território compartilhado entre os povos Guajajara e Awá, bem como abriga indígenas Awá em isolamento voluntário. Está inserida em uma região fundamental para a manutenção de áreas contínuas de floresta e da biodiversidade. Durante décadas, a região foi submetida à pressão de madeireiros, invasões e outras formas de exploração ilegal.

Foi justamente diante dessa realidade que as comunidades passaram a construir estratégias próprias de proteção territorial.

Na TI Carú, a organização comunitária deu origem e fortaleceu iniciativas como as Guerreiras da Floresta, os Guardiões da Floresta, a Brigada de Combate a Incêndios e a Juventude Zawató, entre outras ações coletivas voltadas ao monitoramento, à proteção ambiental e à defesa do território.

Essas iniciativas não podem ser compreendidas separadamente das lideranças que ajudaram a construí-las e fortalecê-las.

O cacique Antônio Wilson é uma dessas lideranças.

Sua atuação também ultrapassa os limites de sua comunidade. Atualmente, integra a governança do Mosaico do Gurupi, enquanto presidente do Conselho Consultivo, instrumento que reúne diferentes áreas protegidas e busca fortalecer uma gestão integrada da paisagem e da conservação. Registros recentes de atividades sobre mosaicos de áreas protegidas ainda o apresentam como liderança da TI Carú e representante do Mosaico Gurupi.

Por isso, a COAPIMA considera grave qualquer tentativa de reduzir toda essa trajetória a uma acusação criminal que, em nosso entendimento, é contraditória e não corresponde à realidade vivenciada no território.

Não se trata de negar a importância da Justiça. Trata-se de exigir que a Justiça também enxergue os povos indígenas, seus territórios e os contextos de violência que historicamente os cercam.

É necessário perguntar: quem protege quem protege o território?

Durante décadas, lideranças indígenas foram ameaçadas, perseguidas e criminalizadas justamente por denunciarem invasões, exploração ilegal de madeira, queimadas, ocupações e outras violações dentro ou no entorno dos territórios.

A experiência da própria TI Carú demonstra que a defesa territorial frequentemente coloca as lideranças em situação de vulnerabilidade. O cacique Antônio Wilson já relatou publicamente ameaças relacionadas à proteção das terras indígenas, e sua trajetória registra sua permanência junto à comunidade mesmo diante de situações de risco.

Enquanto isso, a violência contra os povos indígenas e contra aqueles que defendem seus territórios continua exigindo respostas efetivas do Estado.

Para a COAPIMA, não é aceitável que a defesa do território seja tratada como crime enquanto as ameaças, invasões e violências contra os povos indígenas permanecem sem a mesma prioridade institucional.

A audiência dos dias 17 e 18 de setembro deve ser, portanto, um momento de busca pela verdade e pela justiça, com respeito ao devido processo legal e, sobretudo, com a consideração do contexto indígena e territorial que envolve o caso.

A COAPIMA reafirma:

Antônio Wilson Guajajara não é apenas um acusado em um processo. É uma liderança indígena com uma história de luta, organização comunitária e defesa territorial.

E é exatamente por isso que sua trajetória precisa ser considerada.

A COAPIMA defende a inocência do cacique Antônio Wilson Guajajara e manifesta sua confiança de que os fatos serão analisados de forma séria, imparcial e contextualizada, permitindo que as contradições existentes na acusação sejam devidamente esclarecidas.

Criminalizar uma liderança sem considerar sua história e a realidade do território significa também enfraquecer aqueles que protegem a floresta.

A COAPIMA seguirá ao lado do povo Guajajara, das comunidades da Terra Indígena Carú e de todas as lideranças indígenas que continuam colocando seus corpos, suas vozes e suas vidas na defesa dos territórios indígenas do Maranhão.